O sacrifício da Aurora

Um dia a Aurora chegou-se

Ao meu quarto de marfim

E com seu riso mais doce

Deitou-se junto de mim

Beijei-lhe a boca orvalhada

E a carne não tinha sangue

A boca sabia a nada.

Apaixonei-me da Aurora

No meu quarto de marfim

Todo o dia à mesma hora

Amava-a só para mim

Palavras que me dizia

Transfiguravam-se em neve

Era-lhe o peso tão leve

Era-lhe a mão tão macia.

Às vezes me adormecia

No meu quarto de marfim

Para acordar, outro dia

Com a Aurora longe de mim

Meu desespero covarde

Levava-me dia afora

Andando em busca da Aurora

Sem ver Manhã, sem ver Tarde.

Hoje, ai de mim, de cansado,

Há dias que até da vida

Durmo com a Noite, ausentado

Da minha Aurora esquecida…

É que apesar de sombria

Prefiro essa grande louca

À Aurora, que além de pouca

É fria, meu Deus, é fria!


Vinicius de Moraes

(1913-1980)


Mais sobre Vinicius de Moraes em

http://pt.wikipedia.org/wiki/Vin%C3%

 

By Juli Ribeiro